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Airen Wormhoudt

Torre Eiffel numa escala corporal em inclinação lateral simples para a esquerda. Imponência. Potência. Do meu pai, herdei a postura. Meu corpo potente que se desloca em seu eixo e se alonga firmemente.

E então, sou acometida por saudade branda. Colapso, que tem origem em meu centro, como se fosse sugada pelas minhas próprias vísceras. Me encolho.

Me encolho porque sei que ao me virar, tudo há de ser diferente. Reestabeleço minhas vértebras e retorno ao meu próprio eixo. Os calcanhares que tocam gentilmente o chão, respondendo obedientemente às leis da gravidade.

E então, o caminho. Incialmente, os braços em ponto fixo se tornam asas. E então, caminho. Um passo. Depois outro. E depois mais outro. Os braços ondulam atrás do meu corpo a cada passada, como se ajudassem no deslocamento, reverberando ondas pelo espaço.

E está ali. Cadeira ausente. Que eu olho, sem olhar. Que eu toco, após pirueta das mãos gentis no ar. Eu toco no espaldar. E ali, a ausência concreta talhada em madeira.

Eu cobri meu rosto. Trancei meus cabelos, cobri meu rosto e senti o conforto de ser somente um corpo. Um corpo que carrega uma bagagem em suas linhas, em seus eixos. Mas que não a personaliza com a alma que lhe escapa pelos olhos ou com a voz que lhe denuncia a identidade ou embarga seus humores. 

Somente um corpo que carrega uma bagagem.

Existe uma guerra lá fora. E eu cubro meu rosto porque não quero perder mais do que já nos foi tirado. Então meus olhos gritam por trás do pano e está tudo bem. Não há nada ali que possa me ser tirado. 

Etienne Decroux dizia que quando um corpo se levanta, ele leva consigo toda a humanidade. Eu aceito. Recolho a minha própria sem deixa-la transbordar dos olhos e sigo. Vou para a guerra.

SOBRE AIREN

Leonina com ascendente em Virgem e Lua em Aquário. Paulistana. Para me apresentar, gostaria de compartilhar a carta de intenção que enviei à Professora Sonia para ingressar no Núcleo de Pesquisa da Presença:

Meu nome é Airen. Sou filha da Ana Maria e do Luiz Antonio, orientanda de Mestrado da Professora Bete Dorgam. Me reconheço artista: o coração que se desloca para a ponta dos dedos ao escrever histórias depois que o corpo já as sentiu e as desenhou pelo espaço de alguma maneira. Posso, também, em determinados períodos da semana, ser psicóloga e arte terapeuta.

Mas, ainda assim, artista. Sempre artista. Escrevo esta carta com intenção de manifestar meu desejo em poder participar do Núcleo de Pesquisa da Presença. Meu contato com as artes do corpo aconteceu ainda na minha primeira formação em teatro – formação técnica, lá pelos meus 18 anos. Tive aulas, na ocasião, com a saudosa Laura Lucci e com Luis Louis no Teatro Escola Macunaíma aqui em São Paulo. Após a minha formação, participei de alguns núcleos de estudos com Louis e então, com o ingresso na faculdade de Psicologia, mantive meu corpo adormecido por algum tempo. Depois de formada, fixei minha residência em Curitiba – onde permaneci por oito anos. Lá, pude retomar minhas pesquisas artísticas junto à Cia. Ganesh de Teatro, pesquisando espaços alternativos como meio de composição de espetáculos, exercitando minha dramaturgia e me reconectando com o meu corpo – antes adormecido.

Reconheço o ponto de virada de minha urgência em poder me dedicar ao que meu corpo desejava expressar e criar, em 2014, ao participar de uma semana especial na Chapada dos Guimarães com Eugenio Barba e Julia Varley. E como a angústia me devorou, dos pés às pontas dos cabelos, ao me sentir tão sem instrumentos para dar vazão a tudo que crescia dentro de mim. Ainda levou 2 anos para que eu pudesse encerrar o capítulo da minha vida curitibana e poder retornar para casa, para o meu lar, na Paulicéia Desvairada.

Em 2017 ingressei no Centro de Criação e Pesquisa da Mímica Total com Luis Louis – que hoje reconheço como um Mestre. Foi um ano intenso, com jornadas diárias de 03 horas, em que pude alimentar meu corpo com técnicas, nutrir minha alma com o reconhecimento de uma linguagem que tornava o silêncio e o vazio que antecedem a criação, o caminho pelo qual eu desejaria explorar. Foi nesse vazio e nesse silêncio que encontrei minha potência criativa pela primeira vez – a racionalidade cedeu espaço ao pensar em movimento, ao corpo que “é e está” neste aqui e agora.

Agora, em 2021, orientada pela maravilhosa Bete Dorgam, que me desperta tanta vontade de ir além em tempos tão sombrios como os que vivenciamos hoje, gostaria de participar do Núcleo de Pesquisa da Presença que você conduz! Minha pesquisa de Mestrado diz respeito à investigação da criação da palavra enquanto dramaturgia, somente após sua manifestação e experimentação no corpo, a partir das técnicas da Mímica Total de Luis Louis – que comunga com grandes Mestres como Marcel Marceau, Etienne Decroux, Jacques Lecoq e Laban.

Ficarei imensamente feliz e nutrida. Desde já agradeço a atenção dispensada para a leitura das minhas breves palavras – sentidas em cada parte do meu corpo, antes de chegarem na ponta dos dedos!

Um abraço carinhoso – em meio a tanto isolamento de afetos,

Currículo Lattes

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ESSE ESPAÇO...

... aglomerado de ideias e preenchido pelo caos critativo. Registro de um Mestrado, da criação, do entendimento, da prática. Orienta os desavisados. Educa os familiares distantes. Alivia o peito dos inconformados. Celebra os grandes Mestres - os presentes e os ausentes. Os que se foram e os que ficaram. Os que são. Que inspiram. Que respiram arte.

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PREENCHENDO O VAZIO