CARTAS À FRIDA
[O que a água me deu]
Magdalena,
Demorei a lhe escrever porque às vezes se quer dizer tanto que não se diz nada. Te escrevo porque após nosso encontro, fui também tomada por uma força ardente e terna por você bem compreendida, que por consequência me descontenta com a capacidade humana que, dentre todas suas possibilidades, aprende a submeter a vastidão que é desejar, ao reducionismo do que é apenas possível. Te escrevo para falar da dor, da paixão, e das insignificâncias; do mundo e das nossas.
Sou uma mulher latino-americana. Tenho em minhas veias a mistura do sangue dos oprimidos e opressores. Floresta e concreto dentro de mim. Nasci e cresci no cerrado brasileiro, mais precisamente na região do Pantanal. As águas doces de lá regem a dinâmica da vida. Uma dança cíclica entre enchentes e vazantes. Vista de cima, a paisagem se assemelha a um grande mosaico formado por rios, campos, florestas e lagoas, perenes ou temporárias.
Nos meses de outubro a março, o período de enchente, essas águas todas se transbordam e avançam por campos e canais, conectando-se entre si e formando uma imensa planície alagada, a maior do mundo. Um lago infinito.
Nos meses de estações secas, de abril a setembro, ocorre a vazante. As águas aos poucos vão sendo drenadas e evaporadas, e se separam novamente, reexistindo como rios e lagoas que não mais se encontram, dando espaço novamente para os verdes campos que estavam antes submersos.
No pico da cheia, nos poucos lugares onde o terreno é um pouco mais elevado, formam-se pequenas ilhas. Essas ilhas tornam-se o abrigo das infinitas espécies de aves, mamíferos e répteis, que aguardam a vazante para explorar novos horizontes. Qualquer tentativa de migração num período de cheia se converte em risco de afogamento, ou de não encontrar alimento ou descanso. Qualquer tentativa de permanecer no mesmo lugar quando a vazante acontece, traz os mesmos riscos, exceto pelo afogamento que se transforma em sede.
Os peixes, meu signo por acaso, ao contrário de todas as outras espécies, são livres na fase de transbordamento, e nadam para onde querem, através do mundo submerso que só eles conhecem bem. O risco para eles, é o de estarem tão distantes de seu lugar comum ou casa quando a vazante chegar; que podem por ventura se aprisionar em lagoas antes desconhecidas. Eles têm então de aprender a viver novamente em um lugar restrito até a próxima cheia, podendo nunca mais encontrar seu lugar de origem ou semelhantes, além de estarem mais vulneráveis às redes daqueles que os devoram.
Dentre as mais de trezentas espécies que lá vivem, uma em específico é minha favorita. Um peixe grande e reluzente, que prefere águas claras, com nome de Dourado, o rei do rio. Por brilharem muito através dos raios de sol que, ao atravessarem a água iluminam suas escamas, são sempre perceptíveis, desejados; e não se escondem, por mais que possam tentar. Os pescadores os chamam de “peixe brigador”, porque se recusam a serem pescados. A cada tentativa de captura, travam batalhas através de saltos e ataques às varas de pesca que podem durar por horas. Os homens desistem, e ele é salvo.
Imaginei por muito tempo que eram eu, essas águas todas. Depois entendi que são a vida em si, e que nada na verdade se separa. Dançando entre enchentes e vazantes. Criando ilhas, fluindo, transbordando, evaporando, secando, até começar tudo outra vez. A vejo escorrer em todos nós, seguir seu fluxo por nossos poros, olhos, amniótica, em dor ou em prazer.
A água já me deu tudo, e tirou tudo também. Esse é o ciclo, e é preciso sabedoria pra saber fluir sem afogar ou secar, ou simplesmente recomeçar. No fim das contas, ela é quem conecta minha ideia de Céu e Terra, capaz de transformar-se de gelo à nuvem, sem nunca deixar de ser o que é.
Volto ao início da carta, como um pequeno ciclo de palavras que se encontram para recomeçar. Se reprimidos os desejos, como a água há de fluir em nós? O ser-humano quando sente, transborda. E é esse transbordar que fertiliza o solo da existência.
Foi isso o que a água me deu e dará até o fim que não existe.
Um abraço em vapor, Maria
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ESSE ESPAÇO...
... aglomerado de ideias e preenchido pelo caos critativo. Registro de um Mestrado, da criação, do entendimento, da prática. Orienta os desavisados. Educa os familiares distantes. Alivia o peito dos inconformados. Celebra os grandes Mestres - os presentes e os ausentes. Os que se foram e os que ficaram. Os que são. Que inspiram. Que respiram arte.