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CARTAS À FRIDA
[Árvore da Esperança, mantenha-se firme]
Magdalena,

A constante tentativa de superar males e dores é uma busca, ou um instinto? O que continua a se mover internamente quando um corpo já não é capaz de fazê-lo plenamente?

Meu corpo é uma testemunha de mim mesma. Fonte inesgotável de prazer e de dor, e na dualidade que me compõe, permaneço. Quem determina as escolhas?

Quando um corpo padece de dor, não há mais como negá-la. É como se a fuga do desconforto que, em tantos níveis tentamos evitar durante a vida, arrombasse uma porta e conquistasse um território. Um hóspede indesejado que carrega tudo consigo. É a aceitação imposta de uma circunstância inegável, que nos conecta com um lugar profundo e inacessível para qualquer outro, por mais dotado de compaixão que seja.

A dor me acompanha desde que me lembro de estar viva. Me ensinou a ficar em silêncio. Quando menina, lembro vividamente da dificuldade que tinha para dormir, com a sensação que descrevia como “infinitas agulhas transpassando todos os meus ossos”. Minha mãe me fazia massagens com pomadas de arnica e enfaixava meu corpinho na tentativa de amenizar o sofrimento, e eu adormecia mais por exaustão que por alívio. Sofria sem entender, e a dor maior era essa.

Levei mais de vinte anos para descobrir a síndrome rara que carrego. Síndrome de Ehler-Danlos. Uma mutação no colágeno do corpo, que está contido em todas as estruturas, músculos, órgãos ossos, tendões, articulações e nervos. Alguns médicos descrevem os portadores da síndrome como edifícios com lindas fachadas, mas internamente caindo aos pedaços. Quão sensíveis somos às dores que não podemos enxergar?

Para lidar com a dor intensa que por vezes mastiga todo o meu corpo, são necessárias morfina e resiliência. Se há em mim alguma força capaz de não permitir que me renda absolutamente, essa força resiste porque existe e sempre existiu também uma pulsão de desejo. Lembrei de você dizendo:

Aos três anos fugi da escola, e fui encontrada em uma sala de dança. Nunca mais parei de dançar. Fui salva de mim mesma porque a dança me encontrou. Me lembrou que por mais identificada com a dor que estivesse; eu era também aquela que girava e saltava por palcos e salas de espelhos; livre, forte e flexível. Muitas vidas não seriam suficientes para dançar da forma como eu desejaria e tudo que eu gostaria.

Há alguns anos, numa fase de piora súbita dos sintomas, perdi metade da visão do meu olho direito. Nunca agradeci tanto pela visão do olho esquerdo. Precisei ser internada, após uma punção na coluna que desencadeou uma reação de não movimentação por cerca de um mês. No hospital, deitada no leito por semanas sem nunca pisar no chão, via pela janela a movimentação das nuvens, o pôr do sol, a escuridão da noite. Comecei a escrever.

Só a vazão ao desejo, seja como for, nos liberta do que pode ser a crueldade de qualquer limitação.

No dia em que voltei a andar, chorei de alegria, e me lembrei de você de novo. Na pintura das Asas quebradas, você pergunta a sua dor: “Te Vas?” E ela responde: No”. Aceitei subitamente que na dualidade que me compõe, permaneço. A dor não irá embora para sempre, mas nunca mais se tornará tudo o que existe.

Os laços que nos conectam à realidade por vezes tornam-se ásperas ataduras. Nesses momentos, de profunda solidão e sofrimento, nos rendemos, ou nos fragmentamos - não como uma tentativa de evitar a dor avassaladora da vida, mas de não nos esquecermos de que somos maiores do que ela.

É preciso que hajam outros eus, que me olhem do outro lado de quantas pontes forem necessárias, para que aconteçam as travessias. E caso a neblina turve essa visão, que a árvore da esperança, mantenha-se firme. Só assim posso me render ao mistério das infinitas possibilidades de tudo que ainda está por vir; e intimamente saber que em circunstâncias que se apresentam como imutáveis, o que muda somos nós.

Obrigada por me olhar do outro lado da ponte,
Maria.

Alas Rotas em página de O Diário de Frida Kahlo, um autorretrato íntimo

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ESSE ESPAÇO...

... aglomerado de ideias e preenchido pelo caos critativo. Registro de um Mestrado, da criação, do entendimento, da prática. Orienta os desavisados. Educa os familiares distantes. Alivia o peito dos inconformados. Celebra os grandes Mestres - os presentes e os ausentes. Os que se foram e os que ficaram. Os que são. Que inspiram. Que respiram arte.