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 Letícia Progênio 

A definição do conceito brasilidade carrega em si uma necessária analise do prisma social, econômico e cultural de onde será observado. Afinal, a pluralidade artística e cultural caracteriza um país com uma área tão extensa como o Brasil. Desse modo, um país fragmentado em regiões singulares e povoado por indivíduos engrandecidos de histórias particulares e sensíveis, nunca deve ser taxado em um único sentimento de pertencimento do que é ser brasileiro.

Eu nasci e cresci a maior parte da minha vida na região Norte do Brasil, porém, em alguns períodos fragmentados eu morei na cidade de São Paulo, onde resido atualmente. Essa quebra de fronteiras constante na minha história gerou diversas indagações que permeiam os meus pensamentos até hoje. Eram pulsantes e para mim, assustadoras, as diferenças culturais, de costumes, vivencias que eu experienciava nas duas regiões. Esse sentimento se tornou combustível para investigar como essas diferenças se cruzavam em meu corpo, que passou a carregar em carne uma identidade que sempre esteve presente, mas hoje é inerente a quem eu sou.


Trago em minha pele, memórias  de  um  povo  acolhedor.  Caloroso.  Com muitas  histórias e cicatrizes que precisam ser contadas e por muitas vezes se perderam. Assim, parto da necessidade  de  compreender  o  processo  de desvalorização da arte e cultura nortista perante a construção artística identitária do país. A partir do pressuposto de que a identidade nacional deve ser fruto de um multiculturalismo. Desse modo, levando em consideração a cultura que reverbera em mim e através de elementos de ligação que permeiam o cotidiano e a cultura nortista, almejo manifestar minhas raízes amazônicas em uma criação dramatúrgica. Todavia, ratifico que existem diversas “Amazônias” dentro da Amazônia e a constante tentativa de generalizar e uniformizar de maneira pejorativa o seu povo, anula a possibilidade entender um mesmo lugar por diferentes espectros. Então, nessa pesquisa me atenho a evidenciar algumas narrativas e suas belezas, tendo convicção que meu objetivo não é abordar uma região com sua magnitude por completo.

CORPO RAIZ

Regada de vida em meus dedos que
entrelaçados em coreografia espontânea irradiam luzes no ar
fortemente conecta as minhas raízes pelos meus pés aterrados ao chão
coluna vertebral, troco, sustentador e resistente a gravidade
 mas por inflexibilidade, clama braços, pernas, pescoço, quadril, coração.
Caules que darão frutos, de onde sairão folhas flores prontas pra desabrochar
e de pouco a pouco o que era sem graça, ganha vida e meu corpo
antes anônimo, ganha cor
ele é verde, marrom , ele é tons de Bacaca, levemente amarelado,
ele é arvore.

MELANCOLIA ATEMPORAL

Minhas memórias sou eu
Eu que desde cedo mergulho em Rio doce imensidão
Eu que sou abençoada com Sol escaldante, hipnotizante,
que perpassa linha imaginaria Norte Sul.
Eu que gozei de dois mundos, ou três ou quatro em um só.
Mistura de cores, de sabores, do acarajé ao tacacá
Do Samba ao carimbó
Da Sapucaí, Eixo Norte e Sul
Todos amontoados nas avenidas com seus corpos carnaval.
Nesse balanço desatinado, por história encruzilhada,
Sigo  regando meu tambor coração
Que pulsa por saudade
Mas em turbulência se contenta em morar temporalmente em casas alheias.
Eu que carrego no peito um pouco de cada mundo que conheço
Eu que pelo ventre de minha mãe germinei em vida e hoje sou fruto
Como é arrebatador o gosto do pertencimento
A certeza de um retorno
E a melancolia atemporal da partida.

SOBRE LETÍCIA

Atriz, bailarina e pesquisadora paraense, reside em São Paulo desde 2020. Atualmente cursa o 5º semestre do bacharelado em Teatro na Escola Superior de Artes Célia Helena, onde integra o Núcleo de Pesquisa da Presença guiado por Sônia Machado de Azevedo, explorando e compartilhando pesquisas em Corpo.

Integrou por sete anos a companhia de dança contemporânea Agesandro Rego em Macapá-AP, cidade em que viveu a maior parte da vida. Iniciou seus trabalhos no teatro no experimento cênico A Roupa que Veste o Homem dirigido por Jones Barsou e desde de então realizou diversas peças e trabalhos artísticos voltados principalmente para a dança-teatro.

Bolsista no programa de Iniciação Científica do Celia Helena, suas pesquisas atualmente estão voltadas para exploração das potências do corpo através de um mergulho ancestral, ligado as raizes de uma artista Amazônida.

Currículo Lattes

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ESSE ESPAÇO...

... aglomerado de ideias e preenchido pelo caos critativo. Registro de um Mestrado, da criação, do entendimento, da prática. Orienta os desavisados. Educa os familiares distantes. Alivia o peito dos inconformados. Celebra os grandes Mestres - os presentes e os ausentes. Os que se foram e os que ficaram. Os que são. Que inspiram. Que respiram arte.

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PREENCHENDO O VAZIO