Imagéticas da
Condição Humana
O Mover entre Frida Kahlo e Kazuo Ohno
Maria Fernanda Suppo, com orientação de Sônia M. de Azevedo
"Toda dor pode ser superada se sobre ela puder ser contada uma história”
- Hannah Arendt
O que a água me deu
Este projeto de pesquisa visa explorar de forma conceitual, artística e poética uma relação entre a potente imagética da pintora Frida Kahlo, e a dança Butoh de Kazuo Ohno. A tessitura da relação se baseia nas subjetividades alinhadas de ambos; que se encontram em pontos como:
-
corpos que não são objetos, e sim sujeitos;
-
a construção de um corpo virtuoso internamente (concentração);
-
a não busca pela virtuosidade, e sim pela expressividade;
-
temáticas vinculadas à intensa expressividade das condições humanas: o intraútero, a dor, o prazer, a paixão, a vida, a morte e o vazio;
-
relação corpo-mente e dualidade.
Além da relação entre Kazuo e Frida, reflexões acerca da dualidade (o conceito japonês “Yin-Yang”); e o espaço entre, ou vazio de possibilidades (o conceito japonês “MA”), são elementos norteadores desta pesquisa.
Artigo completo: Imagéticas da Condição Humana: o mover entre Frida Kahlo e Kazuo Ohno
Resumo
Foram sinuosos os caminhos que me conduziram à Frida e Kazuo. Tenho a forte impressão de que foram eles quem me encontraram, e não o oposto.
Há alguns anos, quando por uma debilidade física estive sem movimentação pelo mesmo período em que Frida esteve internada, também imóvel; sua biografia chegou até mim e ganhei uma amiga. Depois disso, na tentativa de retomar minha relação com a dança, ou com minha antiga percepção do que era dançar; o corpo, lesionado e frágil me convidou a reformar percepções. Ao substituir virtuosidade, por expressividade, encontrei Kazuo e a Dança Butoh, que revolucionaram minha ideia de movimento por sua manifestação estética e principalmente filosófica. Era possível dançar estaticamente. Era possível preencher um espaço com presença. Era possível integrar qualquer condição em que meu corpo estivesse.
Dançar sempre me foi essencial. A cada dia mais, amo e escolho a dança porque ela revela uma verdade oculta nas coisas e nunca me canso de testemunhar como ela pode traduzir nossas entranhas. É com ela que resisto e existo. Foi por ela que aos três anos escapei da escola e fui me esconder numa sala de ballet. Precisávamos nos encontrar para que eu pudesse ser eu. Nunca mais parei de dançar, e sendo convidada a ressignificar a dança constantemente através das circunstâncias, tenho compreendido que entender sua natureza é também entender a própria Vida; e que a Dança é maior, sempre maior, sempre além; que formas e construções advindas do externo.
Essa pesquisa não pretende encontrar respostas. Como diz minha amada mestra e orientadora Sonia Machado de Azevedo "é apenas um simples legado de tempos duros quando a vida precisou ser revisitada dia a dia (como foram longos alguns dias…)”.
Introdução
As temáticas foram reflexos de questionamentos que surgiram durante a pandemia de 2020/22 causada pelo Covid-19, quando o isolamento social e o doloroso contexto global instigou um questionamento profundo acerca da existência, resistência, o que é ser e estar no mundo; e como seria possível olhar para questões tão naturais e complexas tais como a vida, a morte, o vazio e a transcendência, através de um olhar artístico referenciado por duas figuras que abordaram tais temáticas em suas vidas e obras. Figuras essas, que tornam-se faróis, no que se diz respeito à caminhar por estados de emergência, e em meio à dor profunda, encontrarem uma pulsão de vida, não como contradição ao sofrimento, mas através de sua integração.
O termo "Imagética" (etimologia: Image(m) + ético) em definição refere-se àquilo que se consegue exprimir através de imagens, que se pode referir ao que contém imagens ou que demonstra imaginação. As imagéticas de Frida Kahlo e Kazuo Ohno, de repente formaram um elo em minha percepção. Ligaram-se através do contato profundo com um universo interno expresso no externo; da extrema capacidade de integrar temáticas sobre a dor e morte, e expressá-las artisticamente como substrato para o próprio existir; ligaram-se por suas temáticas comuns que dialogam com a condição humana: a experiência da dualidade através do prazer e dor, vida e morte, intra-útero e vazio, luz e sombra.
A relação entre o Butoh de Kazuo Ohno; a biografia e obra de Frida Kahlo, e reflexões acerca da dualidade (o conceito japonês “Yin-Yang”); e o espaço entre, ou vazio de possibilidades (o conceito japonês “MA”), são elementos norteadores desta pesquisa.
Cartas à Frida
[O que a àgua me deu]
[Árvore da Esperança, mantenha-se firme]
Dualidade
"As duas Fridas - 1939”, Frida Kahlo e Yin-Yang - na cultura chinesa, par de forças ou princípios fundamentais do universo, ao mesmo tempo antagônicos e complementares, em perpétua oscilação de predominância (supremacia relativa ou passageira do yin ou do yang ), presentes nas manifestações orgânicas, psicológicas e sociais do ser humano e na dimensão inorgânica da natureza.
Fragmentos da experimentação de movimento em formato vídeo-dança relacionada à obra “As duas Fridas - 1939”, abordando a temática da dualidade, denominado d i c o t o m i a
Treino e(m) poema - Kazuo Ohno
Fragmentos do livro Treino e(m) poema, Kazuo Ohno
O livro de difícil acesso e rara publicação contém transcrições dos treinamentos poéticos no Butoh de Kazuo Ohno. Foram acessados através do curso O corpo da dança-teatro Butoh - com o Prof. Dr. Alain Alberganti.
"Percebe-se perfeitamente quando se dança com a cabeça; quando dançamos pensando no que vamos fazer em seguida – e depois, e depois tudo isso passa ao espectador, por mais que se tente disfarçar. Portanto, sejam responsáveis pelo que fazem. Ainda que seja um disparate.” p.26
“O palco do butô é o ventre materno. O útero, o útero do cosmos, o palco da minha dança é o útero, é o interior do ventre. Vida e morte são uma coisa só, indivisíveis. Assim como nascemos, a morte é inevitável. Sempre uma contradição. Nasce uma vida. Regredimos no tempo e chegamos à criação do mundo. A história segue até nossos dias desde então. É o que precisamos manter em nosso pensamento. Pensar é viver.” p. 28
"É preciso desabrochar até onde for possível, com toda a alma". Kazuo Ohno
Não podemos nos movimentar o tempo todo. Movimentar e descansar; de repente surge um espaço minúsculo. O espaço onde descansamos e a partir do qual, pouco a pouco, ascendemos. Há um espaço de liberdade para descansar. Não precisamos nos mover o tempo todo, há esse cantinho. Nos movimentamos, mexemos, mas quando tem esse lugar para descansar, sentimos alívio. Depois partimos para outra. E descansamos de novo. Não crescemos quando estamos em movimento, sabiam? Mas quando paramos, descansamos e sonhamos – será que não é nessa hora que nosso espírito cresce? p. 36
“O butô ele mesmo se move de maneira sinuosa, como uma serpente. As mãos são feitas para falar com eloquência, como se quisessem expressar nossos sentimentos. Mas os pés não falam tanto quanto as mãos porque eles ancoram a vida. Será que não é por isso que o butô existe? “ p. 38
“Uma borboleta a atravessar o mar. Ou, digamos apenas, mar e borboleta. Pode ir voando, dentro do mar. Como seria esse voo? Ela já está nadando no mar.”p. 40
“Olhos abertos que não veem. [...] Estes são os melhores olhos. Os olhos que não veem – não aqueles que, ‘’tem isto, tem aquilo, e agora, o que fazer?” Esvaziar a mente. E isso, então, significa que não estudamos ? Não pelo contrário. “Estudar, estudar, estudar e jogar tudo fora?” Não, não é jogar fora. É o estudo que nos sustenta. Quando vejo uma dança assim, não precisa ser um movimento grande, pode ficar apenas em pé, fazer somente um pequeno movimento – ah que lindo!” p. 58
“Antigamente, a maioria das peças de nô tinha como tema pessoas mortas ou espíritos de mortos a confabular – isso é o nô. Quanto a mim não quero imitar como vivem os mortos, eu gostaria de dançar com o sentimento de estar andando, de estar vivendo junto a eles, e deles recebendo as graças. Só imitar não dá. Ser como essência, para além da imitação, como se a matéria realmente existisse. A imaginação... O que pensamos não é o que nós pensamos, é uma graça que recebemos dos mortos.” p. 66
“O que é o butô ? Hijikata disse que “o butô é um cadáver que se coloca em pé, arriscando a própria vida.” Para mim é um mundo além da técnica.” p.72 “Varal de roupas. Sopra um vento. Bate um sol. Estão secando. O vento dentro da minha alma. Varal. O vento começou a soprar. Bate o sol. Façam como quiserem. Dentro desta atmosfera, livremente. Mas vocês não estão usando tanto o vento quanto poderiam...” p. 82
“O que vem antes, o espirito ou o corpo ? Para tornar uno o corpo e a alma, é preciso fazer com que a alma se volte para nós, que ela venha até nós. Se o corpo estiver tenso, ela não vem.” p. 88
“Eu acho que a dança é um fantasma. Precisa ser um fantasma. Parece ter forma, parece não ter, não tem sua forma. Dentro de mim vivem aves, vivem animais, tudo vive. É preciso ser um fantasma. Um treino assim – hoje não vou falar além disso, a dança de fantasmas . Que tal dança-la livremente ? Em suma, treinamos para nos tornar fantasmas.” p. 90
“O eixo do corpo se inclina um pouco para frente, entenderam? Para avançar, o centro de gravidade também vai um pouco para frente. Em seguida, as vértebras. Não deixem as vértebras avançarem ou o peito. Puxem as vértebras para trás e estiquem o topo da cabeça para cima. [...] Mesmo esticado o corpo avança sozinho. Quando pensaram em dar um passo, já é como se avançaram, desde o quadril até o peito, a partir do queixo. [...] Relaxem, relaxam. Não avançam pelas pernas, procuram avançar pelo peito, pelos ombros. Mas que flor linda ! Com o centro de gravidade à frente, os pés agem automaticamente, você pensa em avançar mas não avança, e eles avançam sozinhos.” p. 92
“Há a experiência dos peixes, a experiências dos vegetais, os anfíbios que vivem no ventre materno com aquela vontade de voar pelos céus. Existem ao infinito, milimetricamente distintas.” p. 94
“Mesmo agora, você é um feto, certo? Está querendo dançar. Por isso você é um feto. Um feto não consegue ver. Mas começa a enxergar aquilo que até então não podia ver. É um outro mundo. Pode se mexer – é por causa de sua vida. Por isso, não se prenda. Pode gritar, pode gemer. Ele está gemendo. Você está no ápice da alegria. Como você é um feto, é melhor fazer a radio taisô [ginástica de rádio] com simplicidade, sem questionamento. Quero ver uma dança assim.” p. 108
Referências
BAIOCCHI, Maura. Butoh: Dança veredas d'alma. [S.l.]: Palas Athena, 1995.
BOGÉA, Inês; LUISI, Emidio (Fotog.). Kazuo Ohno. São Paulo - SP: Cosac & Naify, 2002.
FOUCAULT, Michel. O corpo utópico; As heterotopias . Trad. Salma Tannus Muchail. São Paulo: no1 Edições, 2013
GREINER, Christine. Butô: Pensamento em evolução. Ilustrações de Rachel Zuanon. São Paulo - SP: Escrituras Editora Ltda, 1998.
GREINER, Christine. O colapso do corpo a partir do ankoku butô de Hijikata Tatsumi
HERRERA, Hayden. Frida, a biografia. Trad. Renato Marques. São Paulo: Globo, 2011.
KAHLO, Frida. O Diário de Frida Kahlo: um autorretrato íntimo. Trad. Mário Pontes. Rio de Janeiro: José Olympio, 2015.
______. Cartas apaixonadas de Frida Kahlo. Compilação Martha Zamora; Trad. Vera Ribeiro. 4a ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2006.
OHNO, Kazuo. Treinamento e(m) poema. N-1 Edições, São Paulo, 2016
Links
https://www.archdaily.com.br/br/912901/o-conceito-ma-para-arata-isozaki-um-modo-de-ver- o -mundo
https://sarauparatodos.wordpress.com/2009/01/21/kazuo-ohno-e-outros-frases-e- fragmentos/
Cursos
O corpo da dança-teatro butoh, com Alain Alberganti (16h)
SOBRE MARIA FERNANDA
Maria Fernanda Suppo é atriz, dançarina e performer. Nascida e criada em Campo Grande - MS, mudou-se do Pantanal para São Paulo em 2020. Cursa o último ano de graduação em Teatro na Escola Superior de Artes Célia Helena, onde integra o Núcleo de Pesquisa da Presença guiado por Sônia Machado de Azevedo, desenvolvendo e partilhando pesquisas em Corpo. É também formada em design de espaços/direção de arte, e considera caminhar pelo mundo sua grande paixão, tendo já percorrido dezoito países por conta própria afim conhecer mais sobre a vida e si mesma. Atualmente faz parte do elenco de Cartas ao Mundo, dirigido por Bia Lessa em cartaz no Sesc Avenida Paulista; uma exposição-manifesto performática que aborda os rumos da humanidade até o presente, e o futuro que nos aguarda utópica, ou distópicamente.
Instagram: @mazuppo | mariafernanda_dandrea@hotmail.com
Currículo Lattes
2021 | Site desenvolvido pela On-Line Art. Todos os direitos reservados.
ESSE ESPAÇO...
... aglomerado de ideias e preenchido pelo caos critativo. Registro de um Mestrado, da criação, do entendimento, da prática. Orienta os desavisados. Educa os familiares distantes. Alivia o peito dos inconformados. Celebra os grandes Mestres - os presentes e os ausentes. Os que se foram e os que ficaram. Os que são. Que inspiram. Que respiram arte.