MEMORIAL
NÚCLEO DE PESQUISA DA PRESENÇA - NPP
ESCOLA SUPERIOR DE ARTES CÉLIA HELENA - ESCH
Depois de muito esperar surgiu o primeiro texto e com ele a certeza de que esse memorial irá se construindo e sendo construído no passar dos dias, sem rumo preciso, de alguma maneira muito à deriva de fatos trazidos pela lembrança e com essa delicada e forte emoção que nos cerca, que cerca a todas as pessoas que participam nesse agora do NPP.
Uma escrita anárquica e potente, como são os melhores momentos da vida. Pode, portanto, inaugurar o memorial que, desejo muito, possa ser escrito por muitas e muitas de nós.
Sonia Machado de Azevedo.
Memorial NPP | Primeiro fragmento
Estávamos sempre descalços, com nossas roupas mais confortáveis...e eram poucas as roupas, as mínimas necessárias; (nos últimos dois anos temos apenas nossos rostos na tela do computador...mas essa é uma história para depois); de modo que um dos princípios, desde o começo dessa caminhada foi o de trabalhar com pouco: poucos objetos, pouco ou nenhum cenário; éramos apenas nós e o espaço, às vezes aquecido pela música que um de nós trazia, às vezes num silêncio tão grande onde nem os passos leves no chão se faziam ouvir. Nós, outros de nós mesmos e outros ali, numa espécie de comunhão que, magicamente, se estabelecia: uma presença ardente e única.
Mas éramos tantos, éramos mais do que os que estávamos ali presentes, conosco vinham os outros, muitos outros que povoavam nossos corpos marcados de memórias: nossas raízes, nossos antigos encontros, nossas infâncias e adolescências...também estavam ali naquele espaço, que foi se tornando mais e mais sagrado talvez pelos segredos que envolviam nossas certezas e nossas dúvidas.
O Núcleo da Pesquisa da Presença sempre foi, e continua sendo, um núcleo de perguntas, um núcleo de experimentação da nossa humanidade, da nossa condição humana, nesta Terra onde chegamos e onde de um dia partiremos.
Ao começar essa escrita, logo mesmo antes de começar percebi a imensidão e, ao mesmo tempo, a impossibilidade de tal tarefa: pelo NPP passaram, ao longo desses anos, mais de duzentos participantes. Todos deixaram sua marca nessa nuvem (não a nuvem das redes que salva nossas memórias em algum lugar e que nos possibilita recuperá-las) nessa nuvem que mora em cada um de nós, em cada uma das nossas células, aquela que nos resguarda a todos de um possível esquecimento de quem somos, de quem não poderemos nunca deixar de ser. É dessa nuvem que quero falar aqui, a que não se detém em nomes, datas e lugares, mas que acaba compondo um substrato inesquecível dos encontros e presenças aparentemente mais perecíveis. Que nos movem, sustentam, transformam o que somos muito longe, mesmo antes da nossa carne, veias, músculos, órgãos em vida por inteiramente viva.
Portanto este memorial será escrito em ondas, numa tentativa de recuperar o irrecuperável e como tiver que ser. Imagino que possa ser escrito a muitas mãos e corpos, porque o que está em mim é pouco para o tanto que tantos vivemos e ainda estamos vivendo, nesse pequeno lugar de imensidão, que chamamos de núcleo/útero/permanência impermanente.
Sonia
Domingo, cinco de dezembro de 2021
Memorial NPP | Segundo fragmento
O nascimento do núcleo - 2012
Uma ideia que foi se desenvolvendo ao longo desse ano em estudo e pesquisa na internet: uma pesquisa da produção artística a partir do e no corpo. Foi assim que a pesquisadora, sentada à frente de um computador, lugar onde ela menos gostaria de estar, desenvolveu a curiosidade, o desejo, a necessidade de pesquisar a presença. Pesquisar sistematicamente…Tentar sistematizar o mutável, o fluido, o impermanente…pesquisa levada pelo sol, pelos ventos e marés…acho que é o que melhor definiria esse princípio de tudo.
Eu não sei o que é uma pesquisa sistemática, uma pesquisa está de tal modo ligada à vida de todos os dias, aos sonhos noturnos e outros desejos, que tem por caminho o de se desenvolver à deriva, em meio ao caos dos pensamentos, das situações do dia a dia, dos espaços vividos, das pessoas encontradas e desencontradas, das lembranças e ausências. Desenvolve-se em meio às muitas (e muitas vezes anárquicas) leituras, produção contínua de conhecimento, espetáculos assistidos, poesias, recortes dançados, corpos que dançam, corpas que dançam. Cresce e se desenvolve, abrindo caminho por regiões antes desérticas onde aparentemente nada havia, nada podia ser visto.
2012 foi isso, o ano nascimento desse núcleo que, em breve completará dez anos de existência; o nascimento de uma ideia que seria vivificada através do passar do tempo em companhia de muita gente, muitos desejos, múltiplas necessidades de expressão, muita procura. NPP é expressão de um coletivo no aqui/agora. Expressão é conversar com o mundo; conversar com o mundo é não estar nunca só.
Na verdade, o Núcleo de Pesquisa da Presença poderia ser o retrato da não-solidão. O NPP poderia ser…acho mesmo que pode ser, o experimento da não solidão, o experimento do compartilhamento entre humanos, entre artistas pesquisadores, porque quando uma ideia nasce ela não nasce apenas para o pesquisador, ela nasce para o mundo, ela simplesmente vem à luz.
Em 2012 essa ideia veio à luz como todas as ideias vêm, como os seres vêm, envolta em sangue, susto e imprecisão, talvez também em um pouco de medo; uma preguiça mesmo de investigar algo que se liga tão extraordinariamente à vida, que é quase o pensamento de criação de um mundo, de vários mundos, nos momentos mesmo em que a criação acontece e se pode vê-la acontecendo em estado de maravilhamento.
O núcleo, em todas as formas e modos de ser, é como um útero artístico onde tudo cresce e germina (como sementes plantadas com método ou simplesmente lançadas ao léu), um lugar de livre experimentação, sem prazos, datas, nenhuma obrigação.
Como se compõe de muitas pessoas, que passam nele um curto período ou permanecem muito tempo, cada abertura de processo se mostra diferente, sendo sempre a mesma surpresa, o mesmo fascinante ato de se arriscar no desconhecido da arte do improviso e da performance. O NPP ou os NPPs que passaram a existir desde 2012 são a vivência do uno no múltiplo. Eu gostaria de ser filósofa nesse momento para poder explicar melhor.
O nascimento em 2012 foi assim: indefinido e, ao mesmo tempo, ardente, porque nesse mundo onde a invisibilidade que nos habita almeja a luz e participar da materialidade das coisas vivas, o caminho que a pesquisa faz é trazer para fora, para o mundo do já existente novos objetos, textos, cantos, cenas e momentos. Mesmo que efêmeros, como o são aqueles que nos habitam no silêncio das madrugadas e que nos perseguem em sonhos pedindo para existir, pedindo para nascer. Os momentos de parto são vividos por nós, como um coletivo ora suave ora pleno de força, ora triste, por outra vezes insuportavelmente feliz, mas sempre acolhedor.
Ao final do ano de 2012 o núcleo passou a existir fora do meu pensamento e das minhas inquietações. E foi acolhido pela ESCH- Escola Superior de Artes Célia Helena à qual pertence até o presente momento.
Quero, nesse texto, agradecer à Armindo Bião[1](em memória) e seus estudos de Etnocenologia que compartilhava conosco no GT - Etnologia/ ABRACE (2007-2011) em anos felizes; sua presença ainda permanece em mim e em tudo que pude com ele aprender, muito especialmente sobre a liberdade e a alegria presentes numa pesquisa alargada e abrangente, sobretudo livre de amarras e pressões.
Sonia
São Paulo, manhã de 10 de dezembro de 2021.
[1] Armindo Bião ( Armindo Jorge de Carvalho Bião) nasceu em Salvador, Bahia em 1950 e faleceu em 2013 na mesma cidade. Professor Titular Associado à UFBA e à Université de Paris Ouest Nanterre La Défense e à Maison des Sciences de L' Homme Paris Nord. Primeiro presidente da ABRACE - Associação Brasileira de Pesquisa e Pós-Graduação em Artes da CEna ( 1998-2002), escritor, ator, pesquisador e professor indescritível que muito me ensinou.
Quando as fronteiras arte/vida se esgarçam II
Todo pesquisador realiza seu trabalho a partir da sua própria vida, do seu próprio olhar e do lugar onde se encontra no mundo. E todo pesquisador é um cidadão desse mundo circunscrito ao seu tempo histórico e à sua história de vida. Então minha fala está indissoluvelmente ligada a essa minha história que começou muito antes do meu próprio nascimento e creio se prolongará até depois da minha morte; é ela que dá significado ao que fiz, faço e farei nos próximos anos.
O pesquisador nunca caminha sozinho; ele necessita da companhia dos outros que vai encontrando vida afora, acompanhantes reais e acompanhantes teóricos que não conhece pessoalmente, mas que passam a fazer parte da sua jornada e da sua família cultural.
Vem desses acompanhantes sem proximidade e de uma relação dialógica com eles através dos livros, de seus escritos e depoimentos, os alicerces de uma busca, mais ou menos circunscrita e seu desenvolvimento. Há também aquelas companhias cuja proximidade física tornam-nas essenciais: parceiros de pesquisa que vivenciam com o pesquisador essa busca interminável de alteridade, de resgate do outro, do outro também em si mesmo, do outro no mundo e do mundo que toda busca traz.
Acredito firmemente que o pesquisador artista está em busca de si mesmo, como de resto todo artista. E o pesquisador artista da cena e das artes presenciais termina por investigar-se a si mesmo, detalhada e minuciosamente numa troca ininterrupta com o outro e com o mundo, em tempo presente.
Hannah Arendt uma de minhas constantes companhias, e com quem minha pesquisa dialoga há mais de dez anos, fala da necessidade de busca da própria história, uma história que me coloca como ser único entre os meus pares, que me garante em vida um lugar que me foi assegurado por nascimento. Essa unicidade, minha consciência de ser um ser único na sociedade e de ocupar nela um lugar, ao mesmo tempo me livra da massificação e do autoritarismo e me oferece a oportunidade e a possibilidade de iniciar nesse mundo humano e na cultura à qual pertenço, algo novo que só eu mesmo posso oferecer.
Mas como essa cientista política, que deu nome a algumas das minhas mais importantes questões chegou relativamente tarde em minha vida precisarei começar do começo.
Sou alguém que estuda e pesquisa a atuação do ator contemporâneo. A partir do corpo do ator, de sua escuta de si e do que o envolve e alimenta. Isso ainda é amplo demais e talvez ainda vago: venho me detendo com bastante delicadeza e atenção no estudo da presença do ator, mais especificamente ainda sobre o aparecimento de alguém que é, através de sua atuação, testemunhado pelo outro, seus pares. Tenho investigado a presença humana como ação política e transformadora, exercício de liberdade e alteridade, no aqui agora dos diversos espaços, onde isso se faz possível: salas, corredores, ruas, parques, calçadas e também teatros.
Essa investigação a que me dedico atualmente parte de uma necessidade particular de trabalhar com o intérprete criando espaços de intimidade, proximidade e olho no olho, em relações de muito aconchego. Essa necessidade vem também como reação pessoal e profissional aos excessos do mundo contemporâneo (excesso de informação e de opção) e à sua extrema virtualidade, também como tentativa de entender, na prática, esse momento particular que estamos vivendo.
Constatamos que as artes da presença podem ser antídoto valioso à falta de nosso corpo quotidiano (do qual nos ausentamos, como que vivendo em sua periferia) e à ausência desse corpo e de sua materialidade na contemporaneidade. Falta tempo para a compreensão de si e do outro, tempo para que as várias formas de estar no mundo material e real possam enfim dialogar com os tantos modos de habitarmos poeticamente o mundo da arte.
Devo dizer que a longo desses mais de quarenta anos, quando tive a sorte de encontrar meu lugar no mundo e nele encontrar meus pares, aqueles com quem seguir vivendo minha vida e meu trabalho (posso chamar esse lugar de comunidade de destino, a partir de conceito de Ecléa Bosi) com quem compartilhar experiências e trocar descobertas caminho nesse, cada vez mais, direcionado foco da presença humana no mundo e na cena.
Descobrir o teatro no final dos anos sessenta foi, de certo modo, voltar ao quintal da infância conhecendo novamente, e de outras maneiras, a importância fundamental do brincar na vida dos homens e a importância de um lugar de fala, de encontro com o outro.
Hannah Arendt fala do aparecimento de alguém, da necessidade da existência tão singular desse alguém ser testemunhada pelos outros. E Emmanuel Levinas então me chega há mais ou menos uma década trazendo seu conceito de Rosto, um rosto sempre à meia luz, e me fala de um passado longínquo que está sempre chegando e já passando, na fugacidade do instante, rumo a improváveis futuros.
O artista da presença, qualquer que seja o nome que a ele dê: performer, intérprete, ator, dançarino, vive nesse instante a instante sua vida efêmera e plena. Mutante, ele se move entre ecos do instante que acabou de passar, percepções informes que se atualizam rapidamente a cada momento e formas/imagens sucessivas que vive. Essas imagens trazem para a visibilidade da cena, outras como as dos sonhos, ora em fiapos, tentando ordenar o caos e o risco que permanentemente o rondam.
Assim esse artista retoma a relação mais simples de todas ao se oferecer a outro homem no tempo real de sua vida tão passageira, contando com a possibilidade de reconhecerem-se ambos em sua mesma condição de ser gente e em sua imensa singularidade.
Comecei meus estudos nos anos setenta pelo teatro e pela dança e essas artes, desde o início, me apareceram como sobrevivência, como modo de luta num momento em que a palavra, nesse país, tornou-se extremamente perigosa; depois de anos veio o mestrado: “O papel do corpo no corpo do ator” transformado em livro muitos anos depois. Nele uma intensa e extensa investigação pessoal em busca das raízes do meu próprio trabalho prático acabou chegando a uma espécie de história do corpo e da atuação, resgatando princípios que remontam ao século XVIII com Noverre e seu balé de ação, quando se começou a pensar a união corpo-mente-coração e de uma espécie de família que dele descende até nós; o trabalho acompanha princípios até chegar ao ator de hoje desde de Noverre, Delsarte, Dalcroze, Isadora Duncan, Laban, Kurt Jooss, Stanislavski, Grotowski, Meyerhold, Artaud, Kantor, Pina Bausch, entre muitos outros e a diversidade incrível de poéticas da dança moderna e do teatro, de vidas preocupadas com as mesmas questões da vitalidade cênica e do corpo integrado à mente, livre de amarras e repressões das formas prontas, dos padrões.
A essa procura juntam-se os trabalhos voltados para as raízes orientais presentes no ator ocidental contemporâneo: a filosofia budista, yoga, tai-chi-chuan, as terapias holísticas e de integração a partir de uma aprofundada escuta do corpo, no aqui-agora da vida. Gerda Alexander, Moshe Feldenkrais, Thèrese Bertherat e tantos outros pesquisadores que tratam o ser humano a partir de seu corpo buscando diversos modos de integrá-lo a si mesmo, de proporcionar uma escuta que pode salvá-lo da desintegração e do caos.
Durante as décadas de oitenta e noventa acompanho e coordeno um trabalho teatral em comunidades diversas no estado de São Paulo, acompanhando a fala cênica de grupos amadores amantes do teatro, uma fala como modo de estar na vida do bairro e da cidade, de se dar a conhecer, de manifestar opinião, de se deixar iluminar para os seus, de estabelecer contato, falar por eles e com eles. Palco como lugar de alargamento de experiências de cidadania, teatro como ação política inserida no dia a dia das pessoas.
Há oito anos surge em mim a necessidade do doutorado e novas companhias se apresentam: Frayze-Pereira e Moura da Psicologia da USP, Winnicott e Luigi Pareyson, entre outros, sempre com a atenção indispensável de meu mestre J. Guinsburg, que me acompanha desde a graduação nos anos setenta.
Enfim, acredito firmemente que uma pesquisa se alimenta de fontes históricas de sua própria área e de áreas diversas trazidas pela necessidade do próprio pesquisador, de sua personalidade, de seus desejos e, sem dúvida, de sua sorte e de seus encontros.
Atualmente oriento o Grupo de Estudos da Presença – GEP, desde junho de 2012, composto de quatorze jovens artistas pesquisadores, alguns já formados e muitos já atuando, procurando fazer e refletir sobre esse fazer. O GEP faz parte de uma faculdade particular bastante nova, a ESCH, mas cuja escola técnica tem uma tradição de quase quarenta anos.
Quando estamos reunidos na nossa sala de trabalho sei que de um modo muito simples estamos refazendo passos por lugares por onde tantos e tantos pesquisadores já passaram; estamos à procura, cada qual, de escrever sua história, mas imersa nessa grande História a qual todos pertencemos. Simplesmente seguimos fazendo coisas, trazendo e mostrando personas encontradas pelas ruas da cidade, no prédio onde moramos, no ônibus ou nos trens; pessoas que atraíram nosso olhar, que simbolicamente conversaram conosco e que agora tentamos conhecê-las em nosso próprio corpo, o corpo que habitamos.
Buscamos no outro nossa outra face, talvez a que ainda não foi nomeada e da qual não conhecemos os contornos. E fazemos isso com a delicadeza que Levinas recomenda: um rosto sempre à meia luz, para deixar que se garantam seus espaços de segredo e seus mistérios.
Não podemos nos esquecer de que enquanto estamos trabalhando nesse lugar entre, intermediário entre se ser um e se ser outro, entre viver a realidade do próprio si mesmo e da própria vida e o corpo do outro (escolhido/trazido) caminhamos em nossa vida na arte, instante a instante, na magia que só os espaços potenciais nos trazem, como nos conta Winnicott. Penetramos nesse lugar/momento de todas as possibilidades, lugar/momento de jogo, do ser e não ser, de onde viemos e dos primórdios de nossas vidas.
O GEP deseja mostrar personas encontradas no mundo, para com esse trabalho resgatá-las do seu anonimato e simbolicamente trazê-las para a luz do testemunho dos outros, basicamente na tentativa de dar voz a quem não a tem, numa espécie de justiça poética.
Esse processo individual que se realiza sob o olhar e o compartilhamento de um grupo visa conhecer, como que de dentro, ou por dentro, os modos tão pessoais e particulares de criação investigando como se dão esses processos criativos em sua inteireza. O artista, nesses casos, é seu próprio suporte, seu corpo/o si mesmo é a obra formada e revelada. Para essa reflexão tenho comigo o pensamento lúcido e abrangente do esteta Luigi Pareyson, descoberta que devo a Frayze-Pereira e seus estudos sobre a recepção estética da obra de arte.
Esse autor ilumina nosso trabalho, traçando perguntas de fora a fora, na medida em que trata da criação e da recepção das obras criadas através do utilíssimo conceito da formatividade, que capturou meu pensamento.
No momento nos ocupamos de pessoas sozinhas, nas mais diferentes situações, que vagam invisíveis pela cidade, que percorrem ruas e avenidas sem que ninguém as note. Seres que já desistiram, outros que insistem no encontro com o "outro", pessoas em situação de risco físico ou mental, pessoas que vão morrer, crianças que são reprimidas em sua curiosidade, adolescentes, cujos desejos não têm nenhuma escuta.
Num mundo hipócrita onde a multidão passa uniforme e homogênea em busca da manutenção de falsos padrões esses seres não encontram lugar. É aí onde nos situamos: numa busca de lugar em meio a um mundo que finge continuamente acolher a diferença, mas que de fato prefere ignorar o diverso.
Enquanto esse bailado mecânico e perfeito acontece, outro mundo solitário, ambíguo e sofrido cresce à margem. É essa margem mais ou menos escondida que nos atrai. Talvez haja encontros fortuitos, talvez alguém em sua solidão encontre outro alguém. Ou não. Talvez o moribundo encontre um olhar que o receba em seu medo e desolação, talvez a criança tenha um cúmplice, talvez o louco um irmão.
O que nos interessa é mostrar os que não têm voz, nem espaço, nem nenhuma visibilidade. Muitos dos quais já nem se lembram de que ainda são pessoas com direitos iguais a todas as outras pessoas. Queremos trazer à luz essas pessoas invisíveis. Do ponto de vista do intérprete seu desafio será o de mostrar e contar, de chegar aos que o assistem do modo mais íntegro e sincero como se dançasse e vivesse realmente tempos mágicos onde tudo é possível e onde há possibilidade de surgimento de novos mundos onde todos os seres humanos possam ser felizes evitando a dor uns dos outros.
Tentamos estabelecer vínculos entre a formatividade nas artes plásticas e seus objetos concretos e duráveis e a que ocorre nas artes cênicas, esse território de efemeridade e ausência, pois toda a presença traz consigo e em si mesma a ausência, suas fissuras, abismos e perguntas que não se atrevem a ter resposta.
Para isso, nossa base de estudos se amplia para a filosofia, antropologia, sociologia e estética. Trata-se de aprimorar, não só o olhar do artista sobre a realidade circundante, como também as diferentes maneiras dessa apreensão acontecer tornando-se forma, meio de expressão e de contato com o outro.
Muitos são os membros do grupo e múltiplos os interesses que giram em torno desse eixo temático comum: concordamos que uma das funções da arte é a do resgate de identidades, a observação do mundo no qual vivemos e a autonomia criativa no trato com o que é visto e percebido. Essa visão do artista enquanto partícipe atuante da sociedade ajuda cada intérprete numa investigação pessoal que visa responder suas próprias perguntas a respeito dos espaços públicos e dos espaços privados num momento como o que vivemos e tratando de responder em ação essas suas questões.
Do ponto de vista estético buscamos investigar as fronteiras entre o intérprete narrador de si e do outro ao mesmo tempo. Os limites que se impõem entre um fato mostrado e um fato vivido são investigados e a busca da presentificação de ações as mais simples norteia o trabalho interpretativo, aquelas ações que, por si só, contam histórias veladas, histórias que nem sabem ser contadas, nem que estão sendo contadas. O objetivo então passa ser a procura do que nos motiva, nos trespassa, nos toca e igualmente tem potência para tocar o outro.
A formatividade tem no ator, objeto dessa arte efêmera que todo o tempo cria sucessivas e novas formas, que se desmancham mal se formam, duplo enfoque. Em primeiro lugar durante o processo de criação a que ele se dedica de modo mais ou menos individual até que receba seu público. E, ao mesmo tempo, na recepção dessa ininterrupta atividade de formar, ou ininterrupta formatividade exigida do ator durante o ato mesmo da apresentação/recepção que é de todo muito diferente daquela que se relaciona às obras de arte.
A congenialidade que pode ou não se estabelecer quando me encontro frente a frente com um ator e sua arte mutante também se afigura diferente daquela estabelecida com outras artes, pois o tempo é curto e irrepetível para esse diálogo. Nessas artes da presença formas e energias se enformam e se modificam todo o tempo alterando os sucessivos desenhos do movimento, do gesto, do corpo.
Se a formatividade é, para Pareyson, “um tal fazer que, enquanto faz, inventa o por fazer e o modo de fazer”, ou seja uma atividade na qual o conceber é já um executar, o projetar é já um fazer e cujas regras de execução vão sendo encontradas pelo caminho, como trabalha o ator? Como esse fazer, que encontra seus próprios modos de fazer no próprio ato? E como isso ocorre nas suas apresentações e reapresentações?
O intérprete sempre pode criar uma obra absolutamente singular e única, pois o faz em seu próprio corpo e a partir de sua personalidade, obra como um todo e obra segundo a segundo passando nos tempos da representação ou da instalação. Se a arte é um fazer é também um conhecer e um procurar a melhor maneira de o dizer, pois se o ator revela um sentido para sua persona ele o faz de uma forma nova e única de acordo também com sua personalidade, tipo físico e temperamento. O trabalho do ator é em si mesmo um fazer formativo: formas em movimentos sucessivos, continuamente desenhados e redesenhados.
Todo e qualquer conteúdo do pensamento: percepção, ideia sensível, lembranças e palavras, uma imagem inédita imaginada ou guardada na memória, constitui no artista do corpo rastros do vivido que desenham a energia das formas conseguidas. A diferença dessa obra de arte para qualquer outra é que ela se encontra viva e, como tal, sujeita às interferências da passagem do tempo no ato da sua recepção. Então a cada dia ela se manifesta, por um lado sempre a mesma, por outro nunca a mesma e o diálogo que se estabelece entre ela e seu leitor é humana e intersubjetiva em tempo real, diferentemente do diálogo que se estabelece com uma obra num museu. A congenialidade então é outra, colocada num outro lugar onde o diálogo é, parte a parte, de carne e osso.
Atores e público arriscam-se nesses exercícios de imersão mútua que terminam por ocasionar, em ambos, um alargamento de horizontes e um crescimento espiritual. Pois isso sempre acontece quando nos expomos uns aos outros correndo os riscos dessa exposição e dessa conversa que, quase todo o tempo, transcorre corpo a corpo, muitas vezes sem a mediação da razão. Essas experiências são conversas alargadas, pois marcam a passagem de um mundo familiar para outro estranho, entre o ator e seu receptor, quando a proximidade é grande numa condição intermediária entre dois mundos.
Desse modo sou devolvido a mim mesmo enriquecido por ter, de algum modo penetrado em outro mundo diferente do meu, penetrei a forma criada por alguém, forma visível e encarnada de sentimentos que antes não tinham existência em minha história de vida. Como se eu tivesse, por algum tempo, participado do destino de outrem, deixando-me visitar por ele em sua materialidade, percorrendo junto com ele os caminhos percorridos em direção à personagem que me trouxe.
Nesse ato de congenialidade percebo o outro como arte em si mesmo, em seu próprio corpo, arte em si, habitada, cheia de histórias e caminhos que como que me são doados, partilhados, divididos quando dele/dela me aproximo. Só que arte viva, que está sempre passando rumo ao futuro, que não se encontra imóvel para que eu dela me aproxime e me dedique o quanto for preciso, sempre em trânsito, sempre num presente que caminha para o fim.
A estética da formatividade e seu conceito de interpretação me trouxeram muitas perguntas, pois falam simultaneamente do processo formador realizado pelo artista (em seu dar à luz, tornar visível) e da leitura/interpretação dessa mesma obra. Esse ato que vai tornando visível o invisível tem por única lei a da própria obra a realizar, por esse motivo os processos de criação de um ator são a auto-investigação absolutamente pessoal, que segue sempre em direção ao exterior (da intenção/impulso à forma, ou da invisibilidade dos impulsos/emoções até a clareza da forma) numa realização formante, que desenha o que antes era informe. A forma encontra-se aqui como organismo mais ou menos estruturado que se dá a conhecer. Mas enquanto forma ela guarda a invisibilidade que a gerou e que permanece nela no passo a passo do processo de enformação.
De acordo com a estética da formatividade o artista, durante esse processo formador, tal qual um descobridor /desbravador de caminhos inventa efetivamente um jeito novo de trabalho em seu contínuo ensaiar; ensaiar como um adivinhar de resultados possíveis que vão se apresentando pari passu nessa caminhada em busca do resultado final. E se cada obra pede uma execução diferente, um movimento interior - essa execução revive a experiência do artista em seu processo formante. E é nesse sentido que a formatividade pensa o público como co-criador e leitor das obras. Todo artista pressente a forma enquanto a busca e intui o final do caminho. Mais ainda, sabe quando o encontrou.
Compreende-se então a forma como ato de comunicação pessoa a pessoa, sempre visível e sempre ligada à personalidade formadora e que pode, por vezes, mas não sempre, capturar o leitor. Essa captura é um reviver a experiência do artista, mas, dessa vez, junto às suas próprias histórias. Isso é ser congenial. Mas, se pensarmos na atenção flutuante que dedicamos à interpretação de uma obra, na qual trechos da nossa própria vida e nossos pensamentos se insinuam no diálogo com o outro/obra a relação com uma obra viva, como no caso das artes do corpo, tudo se torna mais complexo tendo em vista que o objeto pode responder com novas histórias que estão sendo tecidas ali, no ato, nesse diálogo estabelecido.
Segundo Pareyson: “pode-se comparar a interpretação a um diálogo entre pessoas feito de perguntas e de respostas, em que se trata não só de saber escutar, mas também de saber fazer falar, isto é, de formular as perguntas do modo mais compreensível ao próprio interlocutor, de forma a dele obter as respostas mais acessíveis ao ponto de vista em que nos encontramos......cabe ao intérprete interrogar a obra de modo a obter dela a resposta mais reveladora para ele, daquele seu ponto de vista, isto é, cabe ao leitor tornar-se congenial com a obra à qual quer ter acesso...”A obra existe assim, para cada leitor, como se tivesse acabado de nascer e tem sua existência suportada pela presença dele.
Dá-se então um trespassamento intenso de parte a parte, pois os dois organismos estão vivos e móveis no tempo. A produção do artista, segundo Pareyson é seu modo de expressão, e esse dizer que é o seu e que está presente na obra traz sua espiritualidade no gesto formante, “o seu próprio ser é um dizer: só sua presença é um significado.”
E esse significado atinge o receptor e a cada um deles de maneira diversa de acordo com o olhar que atravessa a forma apresentada ou se encontra com ela num tempo que só a experiência oferece; deixar-se trespassar pela experiência do outro é ver, sem necessária, nem exatamente registrar conscientemente o que é visto; o receptor recebe novas articulações que ultrapassam a própria obra e que abrem, ao mesmo tempo, espaço dentro dele tecendo caminhos antes não conhecidos.
Frayze-Pereira em um livro lindíssimo que se chama Arte, Dor, diz sobre a recepção de uma obra de arte: “se a ambiguidade e transcendência são essenciais ao simbólico, o olhar flutuante co-participará das formas. E com esse reconhecimento cria-se a possibilidade de a interpretação vir a ser congenial à forma. Quer dizer, torna-se possível à obra expressar uma experiência atual, ao objeto estético conservar a sua legitimidade, ao olhar do espectador-analista pertencer às formas que se oferecem a ele nos objetos visíveis”.
No caso das artes da presença a congenialidade nasce de uma experiência de intercorporeidade – o outro é o outro eu mesmo em ação e na relação entre dois seres e seus corpos, em seus caminhos de sucessiva interiorização/exteriorização, impulsos e novas formas sempre reflexivo e perceptivo. Desse modo o espectador, entrando na obra do artista inicia também ele um trabalho, o seu trabalho que reafirma o do artista, como numa conversa que parece não ter fim e que alarga os seus próprios horizontes para o antes desconhecido, para o novo que sempre surgirá.
Sonia Machado de Azevedo, 2012.
Lançamento do NPP, chamado à época GEP.
ÁLBUM DE CORPOS-POESIA
2021 | Site desenvolvido pela On-Line Art. Todos os direitos reservados.
PREENCHENDO O VAZIO
CONTATO
airen.worm@gmail.com
São Paulo-SP
Brasil
@airenworm
https://airen.com.br
ESSE ESPAÇO...
... aglomerado de ideias e preenchido pelo caos critativo. Registro de um Mestrado, da criação, do entendimento, da prática. Orienta os desavisados. Educa os familiares distantes. Alivia o peito dos inconformados. Celebra os grandes Mestres - os presentes e os ausentes. Os que se foram e os que ficaram. Os que são. Que inspiram. Que respiram arte.